Jhulia Avila, de 28 anos, é motorista canavieira na Usina Batatais, no interior de São Paulo. Natural de Franca e criada em São José da Bela Vista, ela cresceu em uma família de motoristas e sempre sonhou em dirigir caminhões. Hoje, ela é a única mulher da família a seguir essa carreira, mas o caminho até a realização do sonho foi longo e cheio de obstáculos.
Aos 17 anos, Jhulia engravidou e, por pressão do pai, casou-se com o então namorado, que tinha 21 anos. O casamento foi marcado por violência psicológica e física. O marido a proibia de trabalhar fora e de tirar a carteira de motorista, dizendo que “isso era coisa de homem”. Ela conta que chegou a pagar o curso de autoescola escondida, com dinheiro guardado, e ia às aulas a pé enquanto ele trabalhava. Quando foi descoberta, mentiu, dizendo que o pai a ajudava.
Com o tempo, Jhulia conseguiu um emprego em um mercado, mas as discussões continuaram. Ela descobriu uma traição do marido e, mesmo assim, tentou convencê-lo a tirar a habilitação para caminhão, na esperança de que ele a apoiasse depois. Ele conseguiu a carteira e foi trabalhar como motorista, mas, quando chegou a vez dela, ele a proibiu: “Mulher não pode trabalhar, você não vai”.
Após descobrir novas traições e sofrer uma agressão, Jhulia decidiu ir embora. Com as duas filhas, de 6 e 2 anos, e apenas uma televisão, ela alugou uma casa na mesma cidade. O ex-marido fez ameaças, dizendo que tiraria a guarda das crianças e que tiraria a vida delas se ela entrasse em outro relacionamento. Jhulia se mudou para Batatais, onde moram seus pais, na primeira semana da pandemia de Covid-19, em março de 2020.
Na cidade nova, ela morou em uma casa de fundo de quintal, pagando R$ 300 de aluguel. Sustentou as filhas com o auxílio emergencial e trabalhou como faxineira, vendedora, no mercado e na padaria. Com o dinheiro economizado, conseguiu tirar a categoria D da habilitação, para veículos de transporte de passageiros. Foi nessa época que conheceu o atual marido, Lucas, com quem tem um filho, Henrique, de dois anos.
Depois de tirar a categoria E, Jhulia trabalhou como instrutora de autoescola, ensinando categorias A e B. Por indicação de um familiar, foi chamada para trabalhar na Usina Batatais. Ela entrou na empresa no dia 20 de março de 2025, exatos cinco anos depois de chegar à cidade com as roupas enroladas em uma coberta. Hoje, Jhulia é motorista canavieira, no posto de bate-volta, onde os motoristas aprendem a carregar e descarregar materiais e fazem manobras complexas.
Há um mês, ela conquistou a casa própria ao lado do marido. Jhulia afirma que quer continuar dirigindo e vendo a vista do campo todos os dias. “Tenho 28 anos e posso ser a melhor mãe possível para as minhas filhas, elas sentem muito orgulho também”, diz.
