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Mariana Lima: “As feridas cicatrizaram” com ex-marido

TV Globo

Foi com medo que Mariana Lima disse sim para sua estreia na televisão. Há exatamente três décadas, em 1996, ela aceitou participar de O Rei do Gado, megasucesso de Benedito Ruy Barbosa, já reprisada cinco vezes. “Eu era a menina meio doidinha que fazia teatro. As novelas não faziam parte do meu universo mental”, relembra. Ela só encarou o desafio porque o diretor Luiz Fernando Carvalho prometeu que ela não precisaria deixar o teatro. O personagem, inicialmente pequeno, ganhou cada vez mais cenas. A menina de cabelos na altura dos ombros – sempre estrategicamente desarrumados —, rosto ingênuo, e dona de uma pequena pinta no lado direito do rosto, destoava do visual típico das protagonistas. “No início eu não consegui lidar muito bem com a fama, mas depois eu fui aprendendo. A televisão me trouxe a capacidade de aprender rápido, ser maleável”, completa.

Mariana Lima saiu de casa aos 16 anos, quando topou viajar pela América Latina com a companhia teatral de Marinho Piacentini, sua primeira experiência mambembe. A menina queria ainda mais, tinha ambições. Recém-saída da adolescência, se matriculou no conceituado instituto fundado por Lee Strasberg em Nova York, escola que formou nomes como Scarlett Johansson e Angelina Jolie. Para custear os estudos, viveu como pôde. Foi babá, garçonete e cuidadora de cachorros, mas no final do dia estava de volta à Manhattan. Em sua formação, o objetivo era se livrar dos clichês e construir sua própria voz artística, algo que fez à fórceps, graças ao método da instituição. De volta ao Brasil, em 1991, começou a buscar oportunidade em São Paulo, espaço de profunda fertilidade para a atividade teatral. Estudou com Maria Alice Vergueiro, ícone do grupo Ornitorrinco, e bateu à porta do Oficina, onde conseguiu um dos principais papeis de Mistérios Gozosos, um dos maiores sucessos da companhia de Zé Celso.

Nas últimas três décadas, Mariana Lima foi colecionando êxitos, um atrás do outro. No cinema, foi destaque em filmes como Sábado (1994), Árido Movie (2007) e Simonal (2020). No teatro, as montagens de A Paixão Segundo G.H. (2003) e Pterodáctilos (2011), renderam consagração entre os pares. Vieram novelas e séries na mesma velocidade, incluindo as elogiadas Filhos do Carnaval (2006) e Assédio (2018). A menina doidinha realmente chegou lá.

Hoje, Mariana Lima conta que leva uma vida mais tranquila. Os dias começam mais cedo – e também terminam bem antes do sol nascer. “Eu era muito festeira, agora faço ginástica, nado, levo uma vida mais regrada, saudável. Vou à festas, mas sem beber, o que é ótimo.” A fase mais careta não é por culpa da maternidade. Com Enrique Diaz, o Kike, com quem foi casada por 25 anos, teve duas filhas, Antonia e Elena. Ela diz que se preocupa com as redes sociais e tem medo das bicicletas elétricas – “se pudesse, não deixaria elas colocarem um capacete e saírem por aí”.

Conta que superou as dificuldades da adolescência, já que o turbilhão de hormônios deixaram as filhas arredias. “Agora, está muito gostoso ser mãe”, garante. Neste meio tempo, o casamento, homem e mulher, chegou ao fim. A relação com Kike não. “A separação foi muito dolorosa, mas se transformou numa amizade profunda. Ele é meu melhor amigo, ainda é a primeira pessoa para quem eu ligo.” A manutenção do amor só foi possível porque as dores arrefeceram. “A gente conseguiu superar a fase em que a ferida está completamente aberta. Eu me mudei, ele se mudou, mas compramos apartamentos perto. Estamos sempre nos vendo, saindo juntos”, completa.

Nos intervalos, muita análise, que ela faz desde os 14 e não ‘larga por nada’. A busca também é para manter o lobo atrás da porta. Desde cedo, a atriz enfrentou episódios depressivos. “Eu tenho essa coisa na genética que vem de pai, avô, irmão. Sou alegre, mas às vezes sou acometida por uma angústia, um medo. Hoje estou bem, feliz, estável.”

30 anos depois de sua primeira aparição na televisão, Mariana Lima comemora o bom momento. Está no ar na terceira temporada de Os Outros, na qual vive uma mulher que está busca do próprio desejo. “Ela não sabe onde está seu coração, é uma mulher em busca de algo. Hoje, é difícil encontrar alguém inteiramente livre. Ela quer esse lugar”, conta. Os trabalhos devem se suceder nos próximos meses. A atriz, que também escreve, está conseguindo equilibrar o tempo para se manter criativa. “Estou escrevendo uma peça, prospectando e de olho nos convites que chegam, analisando com cuidado. Mas o mais importante é que sigo aberta ao que vier.” O medo, aquele sentimento de tempos iniciais, finalmente se foi. “Me custou muito esse lugar, foi muito doloroso”.