domingo, abril 19

O Teatro de Contêiner foi demolido no final de março. A Prefeitura de São Paulo executou a derrubada após uma disputa judicial entre o prefeito Ricardo Nunes (MDB) e a Cia Mungunzá, responsável pela gestão do espaço há quase dez anos. A estrutura física se foi, mas ficam as histórias e memórias.

“Era um espaço que dava espaço para quem não tinha”, lamenta Virginia Iglesias, atriz e produtora da companhia. “Esse era o grande valor. Agora, tudo está perdido.”

Sua colega, a também atriz Verônica Gentilin, lembra que o local não era apenas um palco. “Quando o fundamos, há quase dez anos, não sabíamos que ele se tornaria um polo cultural”, diz. Ela destaca que o espaço mantinha um diálogo constante com seu entorno, diferentemente de outros grupos.

Na última década, o teatro ficou conhecido por ser democrático. Recebia artistas e público de diferentes classes sociais. No mesmo local, conviviam terapeutas, comerciantes, políticos, população em situação de rua e usuários de programas de redução de danos. A sede ficava na Rua dos Gusmões, no Centro de São Paulo, ao lado da região conhecida como Cracolândia.

“Víamos eles sentados na mesma plateia. Era um espaço quase utópico”, afirma Gentilin.

A Cia Mungunzá recebeu autorização para ocupar o espaço e começou a criação dos contêineres em 2016, inaugurando no ano seguinte. De lá para cá, houve muitas peças, mostras, oficinas e eventos culturais.

“A gente considera a construção um dos nossos feitos artísticos”, defende a atriz e produtora Sandra Modesto. A ideia era ter um espaço próprio para não depender de outras instituições. A instalação foi feita com recursos coletivos da companhia. “Por isso doi tanto sua destruição”, complementa Virginia Iglesias.

A primeira notificação sobre a decisão da prefeitura de reocupar o lugar chegou em maio de 2025, durante a apresentação do espetáculo Elã. O grupo recebeu uma ordem judicial de despejo. Seguiu-se uma batalha judicial.

De um lado, a Cia Mungunzá defendia um acordo com o estado de São Paulo de 2016 e editais culturais que previam a manutenção do espaço. Do outro, a prefeitura acusava o coletivo de ocupação irregular por quase dez anos, alegando ligações clandestinas de água e luz. O prefeito Ricardo Nunes afirmou que planejava construir no local um prédio de moradia popular.

Membros do coletivo afirmam que, em gestões anteriores, sempre houve diálogo. “Tudo era conversado e permitido. De repente, virou essa contenda judicial”, diz Iglesias. Eles não pagavam contas de luz e água porque estas eram assumidas pelo poder público, em um acordo de cooperação.

As artistas citam que, na pandemia, cederam o espaço para a prefeitura distribuir marmitas. Entre 2024 e 2025, firmaram parceria com a Secretaria de Saúde para atendimentos a pessoas em situação de rua.

“É uma ode à não cultura pelo nosso prefeito e governador”, criticou Sandra Modesto. “Nos fizeram assinar um contrato em 23 de dezembro falando que tirariam os contêineres até o dia 29. Nós não tínhamos a verba para mudar os contêineres em seis dias.”

A prefeitura ofereceu um novo terreno, mas os artistas alegam que o espaço era insuficiente. “O teatro é feito de paredes de vidro, precisa de um mínimo de recuo”, explica Modesto.

A técnica Paloma Dantas também aponta um processo de desarticulação entre a Cia Mungunzá e outros coletivos que ocupavam o espaço, como o Coletivo Tem Sentimento.

Para elas, o primeiro baque foi o lacre do teatro. O segundo, a instalação de tapumes. O último foi a demolição, feita sem aviso prévio. A companhia soube por um programa de notícias na TV.

“Estávamos voltando de Rio Preto. Jamais pensaríamos que fariam isso com tanta coisa acontecendo na cidade, como o Lollapalooza. Fomos pegos de surpresa”, lamentam.

Para Sandra Modesto, o Teatro de Contêiner deixou de ser apenas um teatro desde sua inauguração, sendo um espaço público de grande uso para a região.

A companhia conta com apoio da FUNARTE e do Ministério da Cultura, que cederam espaços para apresentações até o fim do ano.

O público e outros artistas se envolveram no caso, prestando solidariedade. “No dia em que fomos expulsos, em menos de dez minutos o local estava cheio de apoiadores”, compartilha Paloma Dantas.

Para Verônica Gentilin, a semente plantada pelo espaço ainda vai germinar. “Não vejo um fim para o Contêiner. Vejo o encerramento de um ciclo. Acredito que ele vá continuar através de um outro corpo material.”

Em nota, a Prefeitura de São Paulo declarou que a ocupação era irregular e reiterou a existência de ligações clandestinas. Afirmou que dialogou por cerca de um ano com o grupo, repassou R$ 2,5 milhões e ofereceu quatro alternativas de terrenos. Disse ainda que a reintegração cumpriu decisão judicial e que vai construir no local um empreendimento habitacional e espaço de lazer.

A prefeitura informou que todos os itens retirados do teatro estão armazenados em um depósito municipal. O terreno, segundo a nota, sempre foi público.